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Cristãos racistas

por petrolitano publicado 31/10/2011 14h47, última modificação 31/10/2011 14h47
Jornal A Gazeta, 17.04.2001

* Domingos José de Almeida Neto


Desde a minha idade mais tenra - e olhe que já não sou mais nenhum brotinho -, fui levado a conviver com a imagem de um Cristo de cabelos louros, rosto afilado e olhos azuis, que me chegava através dos calendários doados por comerciantes locais, por ocasião das felicitações natalinas, os quais tinham, na verdade, o objetivo de fazer propaganda comercial. Assim como eu, milhares de cristãos espalhados pelo mundo, fossem de origem católica ou protestante, absorveram ao longo dos séculos este Jesus europeizado.

Afinal, quem foi o eleito de Deus que teve a dádiva de receber e reproduzir para o mundo a face do Filho do Homem? Ou não teve, sendo que tudo não passou da obra de imaginação? Se assim foi, certamente que o imaginário não foi obra-prima de um artista da África Negra, por exemplo.

Bem, o fato é que se contestações outras já haviam sido feitas acerca da verdadeira imagem do Senhor, ela não havia atingido proporções iguais à recentemente apresentada: uma face produzida por cientistas a partir de características de um palestino médio que vivera no limiar do século primeiro.

A nova face do Cristo, longe de expressar por si só paz, mansidão e, acima de tudo, um conceito de beleza próprio das nações européias (colonizadoras/dominadoras), tal qual estávamos acostumados a ver, apresenta-se configurada como a de um mortal comum. Ora, a não ser na estonteante reprodução cinematográfica “O Alto da Compadecida”, baseada na obra do eminente Ariano Suassuna, jamais havia visto um Cristo de expressão e cor tão diferentes, sendo que talvez, por isso mesmo, não consegui até agora com Ele me acostumar, apesar de não ser um dos seus ferrenhos seguidores.

Diante do exposto, ponho-me a imaginar como as beatas e beatos inveterados receberam a notícia: - um Cristo negro, de expressões grotescas! Não, este não é o meu Senhor! O que conheço possui traços finos, pele branca e sedosa, cabelos dourados e olhos da cor do céu!

A dificuldade em se aceitar um Cristo diferente não é apenas uma simples questão de fé em contraposição à ciência, mas de um dogma religioso e histórico, de uma cultura cristã universal dominada pelas religiões criadas no interior de nações poderosas, de um racismo exacerbado que não consegue perceber que a imagem do Primogênito e Unigênito de Deus pode transfigurar-se no imaginário de cada uma das suas criaturas em particular ou através de um sincretismo religioso.

Afinal, passados quase dois mil anos da ascensão do Nazareno para assentar-se à direita do Pai, que diferença faz se sua aparência material era de um asiático ou de um africano, de um europeu ou norte-americano? Para os cristãos verdadeiros, nenhuma, pois não buscam a forma corpórea da época em que o “espírito se fez carne e habitou entre nós” - que acreditamos ter tido mesmo a aparência de um palestino médio, já que esta fora sua pátria de nascimento, bem como pelo fato de julgar que jamais se apresentaria com feições tão adversas dos seu compatriotas -, mas em espírito e em verdade.

A nova face do Supremo, portanto, só interessa enquanto pesquisa científica, no sentido de tentar esclarecer que a imagem que antes se tinha não passou de uma criação da mente alienada do homem com objetivos bastante definidos, e aos cristãos que devem viver o cristianismo verdadeiro, desapossados de qualquer natureza humana. 

* Professor do Departamento de Geografia da Ufac